Boris Godunov

De Modest Mussorgsky - Ópera Nacional de Paris

Drama em um prólogo e quatro atos
Libreto de Modest Mussorgsky
Baseado no drama homônimo de Alexander Pushkin
Cantada em russo
Primeira encenação em 1874 no Teatro Mariinsky – São Petersburgo, Rússia
Duração: 2h28

Maestro: Vladimir Jurowski
Diretor: Ivan van Hove
Diretor de Coro: José Luis Basso
Figurino: An D’Huys

Coro, balé e orquestra da Ópera Nacional de Paris
Maîtrise des Hauts-de-Seine / Coro infantil da Ópera Nacional de Paris

Ildar Abdrazakov (Boris Godunov)
Evdokia Malevskaya (Fiodor, filho de Boris)
Ruza nMantashyan (Xenia, filha de Boris)
Alexandra Durseneva (a ama de leite)
Maxim Paster (Príncipe Chouïski)

Rússia nos séculos XVI e XVII. Para conquistar o poder, Bóris Godunov manda assassinarem Dimitri, filho de Ivan, o Terrível, e herdeiro legítimo do trono. Consegue, então, ser coroado com o aval da aclamação popular. Contudo, cinco anos depois, o país se vê castigado pela peste e pela fome. Boris passa a ser recriminado por ter atraído essas desgraças. Grigori, um jovem monge que se faz passar por Dimitri, convence o rei da Polônia a invadir a Rússia e Boris, atormentado pelo remorso e pela culpa, mergulha na loucura, enquanto Grigori usurpa seu poder.

Obra emblemática da ópera russa, com seus amplos afrescos compostos por corais, seu drama histórico e a expressividade exagerada de seus protagonistas, Boris Godunov é uma reflexão abrangente a respeito da solidão do poder por meio do reino trágico de Bóris, czar de todas as Rússias entre 1598 e 1605. O libreto, inspirado no texto sem pretensões de exatidão histórica de Alexander Pushkin, inspirando-se ele próprio em Macbeth, de Shakespeare, relata a lenta descida ao inferno e a morte do usurpador do trono, assassino do czaréviche Dimitri, no momento em que se apresenta um novo impostor se fazendo passar pelo jovem príncipe assassinado. Tomando como ponto de partida esse poema épico, Mussorgskiy compõe um drama popular no qual o verdadeiro protagonista é o povo russo, com sua leva de eternos sofrimentos.

Existem duas versões de Boris Godunov: a que foi revista em 1872, utilizada com maior frequência, o que é compreensível, já que contém vários acréscimos à brilhante partitura de Mussorgsky; e pouco a pouco, no entanto, vemos um número maior de produções adotarem a versão original de 1869. É essa a que nos propõe Vladimir Jurowski, regente russo emblemático da Filarmônica de Londres e do Festival de Glyndebourne. Aos seus olhos é a mais interessante, a mais inovadora, a mais revolucionária no mundo da ópera russa do século XIX. Nela, ouvem-se já ecos de Stravinski, Prokofiev, ou mesmo Shostakovitch e Janáček, enquanto a segunda versão mostra-se mais afinada com a tradição da grande ópera, na linha de Meyerbeer ou Verdi. Essa primeira versão, também mais intimista, centra seu foco sobre a psicologia de Bóris. Jurowski declara : “Procurei reencontrar esse tom sombrio e minimalista, bastante afastado do som operístico amplo e profundo, com uma orquestra tocando instrumentos modernos, pedindo aos músicos, às vezes explicitamente, que tocassem sem recorrer ao vibratto”.

No âmbito da montagem, foram evitados casacos de peles, longas barbas grisalhas ou ícones ricamente trabalhados. Ivo van Hove expõe o drama num espaço deliberadamente despojado, com uma encenação minimalista, abstrata e moderna, desprovida de armadilhas cronológicas ou históricas. A utilização do espaço, com retroprojeções de imagens do povo russo e de paisagens que se refletem nas laterais, transmite uma impressão de escala épica que pode igualmente proporcionar um nível de intensidade mais íntima. Elemento central na cenografia, uma escada está presente no palco e seu simbolismo não podia ser mais evidente, representando a subida e a descida ao poder, assim como a separação das classes dirigentes e do povo.

Ildar Abdrazakov opta por uma abordagem promissora para o seu papel, na qual a flexibilidade e o calor do seu canto, não isento de autoridade, conferem ao czar uma sobriedade adequada à visão cênica. A voz se curva sem dificuldade à natureza híbrida da tessitura e sua encarnação totalmente sóbria mostra-se desprovida dos soluços expressionistas e de outros gritos que os intérpretes desse papel no passado julgavam convenientes para adornar suas performances. O quadro final, interpretado num ritmo célere, é de um despojamento impressionante.

Maxim Paster caracteriza Chouiski como um personagem, conforme sua vontade, traiçoeiro e com ares de réptil. Boris Pinkhasovich, como Chtchelkalov, e Mikhail Timoshenko, como Mitioukha, são notáveis. Quanto ao trio das vozes femininas, ele revela o timbre peculiar de Evdokia Malevskaya, enquanto Ruzan Mantashyan apresenta em Xenia as belezas suculentas de um timbre a um só tempo viçoso e exuberante.

Enfim, são admiráveis as intervenções do coro da Ópera de Paris, sobretudo no primeiro plano dessa obra, absolutamente à altura do que o espetáculo propõe.

Prólogo

Diante do mosteiro de Novodevitchy, guardas mandam a multidão implorar a Boris Godunov que aceite suceder o czar Fyodor. Em Moscou, sino anunciam a entrada de uma procissão na catedral. A multidão festeja quando o czar recém-coroado aparece, mas Boris está cheio de maus pressentimentos.

Ato I

Seis anos depois, no mosteiro de Chudov, o padre Pimen escreve a crônica da história russa. Grigory, outro monge, desperta, e Pimen recorda Ivan o Terrível e seu filho, Fyodor. Pimen afirma que os assassinos de Dimitry, o jovem meio-irmão de Fyodor, confessaram o mando de Boris e observa que hoje Dimitry teria a idade de Grigory. Num albergue perto da fronteira da Lituânia, Grigory entra com dois monges mendicantes. Policiais vêm prendê-lo, e ele foge.

Ato II

Boris reconforta sua filha e diz ao filho que estude com afinco. Avalia então com desalento seu destino, sempre com o sono conturbado por imagens de uma criança ensanguentada. Shuisky vem falar de Dimitry, um falso pretendente ao trono de Boris, apoiado por Roma e pela Lituânia. Boris diz que uma criança morta não pode desafiar um czar coroado, mas se pergunta se o menino morto era mesmo Dimitry. Quando Shuisky descreve as feridas em seu corpo, Boris vê o fantasma de Dimitry. Em pânico, implora misericórdia a Deus para o “culpado czar Boris”.

Ato III

Num castelo na Polônia, Marina, a filha do governador, sonha tornar-se czarina. O jesuíta Rangoni a exorta a converter a Rússia ortodoxa ao catolicismo. Para isso, diz, ela deve seduzir o pretendente Dimitry. Marina, objeta, mas Rangoni a repreende. Ali perto, Dimitry sonha com ela. Marina afirma que só o trono russo a tenta. Enraivecido, Dimitry responde que, uma vez coroado, rirá dela. De repente, Marina declara-lhe amor.

Ato IV

O Idiota tem seu último copeque roubado por moleques e pede a Boris que os mate, assim como matou o jovem Dimitry. Boris pede suas orações, mas o Idiota diz que não pode rezar por Herodes. Transtornado, Boris aparece no conselho dos boiardos, imaginando que o pequeno Dimitry está vivo. O monge Pimen relata um milagre no túmulo do menino. Sufocando, Boris nomeia o filho seu sucessor e morre. Numa floresta, o Pretendente convoca o povo a segui-lo. A multidão se afasta, e o Idiota verte lágrimas amargas pela Rússia.


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